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jan
10

1ª Parte – A descoberta do Lúpus

Aos 14 anos, participei de um concurso de beleza. As candidatas, que ganharam na primeira fase, foram apresentadas a população santamariense, em uma carreata. Lembro que aquele dia o calor era demasiado, a temperatura estava em torno de 40ºC.  Após a longa carreata, todas as candidatas se dirigiram até a prefeitura que estava com o ar condicionada ligado. Ao adentrar o local, senti um arrepio e durante o discurso do prefeito comecei a passar mal. Participei do concurso Municipal já apresentando sinais de febre.  Me classifiquei como 2ª Princesa e como premio ganhei aulas de modelo em uma agência conhecida no Estado.
A febre permaneceu por dias, dores no corpo e de cabeça. Minha pele foi tomada por uma alergia, mas permaneci frequentando o ensino fundamental, fazendo educação física e dançando.

Certo dia percebi que meu joelho encontrava-se inchado. Agora eu estava com febre, dores no corpo, dores de cabeça, alergias, tosse, e o joelho inchado. Os dias se passaram e outras juntas do meu corpo começaram a inchar, foi ai que minha mãe decidiu me levar no médico. Fomos até um reumatologista, que me examinou, solicitou alguns exames e me encaminhou para o Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM). Ouvi o médico balbuciar bem baixinho para minha mãe que ele suspeitava que o que eu tinha era grave, muito grave!
Uma semana depois minha mãe e eu nos dirigimos até o hospital, já com os exames prontos. O médico nos atendeu, observou os resultados dos exames e imediatamente me encaminhou para internação hospitalar. Deitei em uma maca e “dormi” por três dias. Ao acordar muitos médicos me examinavam e o chefe deles me explicou que eu sou portadora de Lúpus Eritomatoso Sistêmico, uma doença crônica que atinge, geralmente, mulheres. Ele falou que esta doença é denominada autoimune, pois desenvolve anticorpos que reagem contra as minhas próprias células sanguíneas e assim prejudicou meus rins, acarretando em um problema chamado sindrome nefrótica, e infeccionou as minhas juntas, que ocasionou a artrite, fato que fez com que eu parasse de andar por alguns meses.
Eu estava com a creatinina muito alterada, fator que me intoxicou bastante e para desativar a doença e normalizar meu organismo os médicos iniciaram o tratamento com corticóides e com quimioterapia (ciclosfosfamida). Fiquei internada por 4 meses e fiz a quimioterapia durante 2 anos. Inicialmente, fazia semanalmente, foi difícil, mas permaneci indo as aulas. Lembro que fazia este tratamento todas as segundas – feiras, ficava enjoada e cansada durante a aplicação, mas voltava para casa bem e comia como uma condenada. De terça a domingo vomitava muito e no entardecer de domingo me sentia melhor, mas na segunda retornava ao hospital para aplicar o medicamento novamente. Emagreci muito, fiquei  esbranquiçada, perdi cabelo, mas aquela fase passou. O Lúpus ativava em certas temporadas e era inibido com altas doses de corticóides. Tive pneumonia 4 vezes seguidas, gastrite devido o elevado uso de medicamentos, convulsões, problemas respiratórios. Lembro que usei para artrite um medicamento muito forte e caríssimo chamado plaquinol, usado também nas vítimas do ebola, este remédio possibilitou que eu voltasse a caminhar.
Baixei hospital por diversas vezes e logo descobri que perdi todos os meus amigos, pois eles achavam que a doença que eu possuía era contagiosa. Exceto o meu vizinho Rodrigo, ele não tinha medo de se aproximar de mim. Brincava comigo, ria das minhas piadas e dormia no chão do meu quarto. Acho que ele nunca viu as bolhas espalhadas sobre a minha pele, minha barriga e bochechas dilatadas, minhas juntas inchadas e minha calvície frontal temporária. O ato do garoto causou admiração na minha mãe que sofria tanto quanto eu.  Rodrigo era como um filho, passava o dia conosco, estudava na escola que minha mãe dava aula e, muitas vezes, viajavamos muito. 

Está época foi muito difícil, mas passou e ao lembrar dela só sinto gratidão e não sofro nem um pouco. Lembro com muito carinho dos médicos que me atenderam no HUSM, dos nossos vizinhos, principalmente, da dona Eronita e da falecida Bela mãe do Rodrigo que sempre levava minhas roupas na Igreja Universal do Reino de Deus, da minha família que sempre esteve incentivando a minha melhora, das professoras da escola que mandavam o material para eu estudar no hospital e das enfermeiras e enfermeiros que me alegravam e brincavam comigo durante os cinco meses que fiquei hospitalizada. Serei eternamente grata aos ex-vizinhos de Alvorada que fizeram chás beneficentes para colaborar com a compra dos meus medicamentos.


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